Histórias de verão: Amor-próprio
Luis Fernando Verissimo
Futebol de praia. Sete para cada lado. Os perdedores pagariam a cerveja. Tudo amigo, tudo em paz. Mas o homem não teria chegado onde chegou, na sua trajetória sobre a Terra, se não fosse um animal orgulhoso. Com a possível exceção do pavão, nenhum outro animal se ama como o homem. E aconteceu do Américo passar a bola pelo meio das pernas do Célio. Não uma, mas duas vezes.
Nenhum amor-próprio resiste a uma bola pelo meio das pernas. O que dirá duas. O homem aprendeu a conviver com as agruras da existência preservando seu amor-próprio. Insucesso nos negócios, frustrações privadas e públicas – tudo faz parte dos desafios da vida moderna que o homem enfrenta com seu orgulho intacto, confiante de que os superará. Ou, pelo menos, de que saberá explica-los. É exatamente o orgulho que faz o homem vencer os grandes infortúnios e as pequenas indignidades e seguir em frente. Tudo pode ser absorvido ou justificado. Menos duas bolas pelo meio das pernas no mesmo jogo. Ainda mais num brasileiro.
Foi o que o Célio quis dizer quando chegou para o Américo e disse:
- Pô, Américo.
- Que foi?
- Não faz mais isso.
- Qual é, cara?
- Pelo meio das pernas, não.
- É brincadeira1
- Faz isso de novo, e eu vou na sua pleura.
O Célio não sabia exatamente onde ficava a pleura, mas era onde bateria se o Américo passasse a bola pelo meio das suas pernas outra vez.
O Américo não se conformou.
- Eu não sabia que você se importava com essas coisas.
- Em passar ridículo? Me importo sim.
- Mas é uma brincadeira. O jogo não vale nada.
- Para você, pode valer muito.
Era uma ameaça. Os dois trabalhavam na mesma firma. O Célio era seu superior. Poderia botar o Américo na rua. Pior do que um pontapé na pleura.
- Está bem, está bem – disse o Américo. – Não faço mais.
E foi jogar do outro lado, onde seu marcador seria, de preferência, um hierarquicamente inferior que ele pudesse driblar à vontade. Mas aconteceu de o Américo ser lançado num contra-ataque do seu time pelo meio e ver pela frente, como o último defensor do time adversário, o Célio. E aqui entra outra característica do homem brasileiro que é o seu peculiar senso de prioridades. De certa forma, um corolário a seu pânico congênito de levar bolas por entre as penas. E também uma questão de amor-próprio. Pois se todos os homens se amam, o homem brasileiro ama algumas coisas em si acima de todas as outras. Não se diga que Américo apenas seguiu seu instinto, sem pensar. Pensou muito, enquanto corria com a bola dominada na direção do Célio. Pensou no seu casamento, que teria de ser adiado se ele perdesse o emprego. Pensou nas vantagens para o seu bem-estar e o seu futuro se ele perdesse a bola para o Célio. E enfiou a bola entre as pernas do Célio e foi busca-la lá na frente, para fazer o gol espetacular, escapando do pontapé que Célio tentava lhe dar por trás. O que era mais importante, brasileiro: a vida ou um gol perfeito? Um gol perfeito, claro.
Mas o Américo, afinal, não foi despedido. Célio não apareceu na firma na segunda-feira. Não foi mais visto. Levar três bolas pelo meio das pernas num único jogo é, parece, uma espécie de limite extra-oficial. Dizem que ele emigrou.
Domingo, 11 de fevereiro de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.